segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Morangos mofados




"[...] sem conseguir juntar os sons em palavras, como uma língua estrangeira, como uma língua molhada, nervosa entrando rápida pelo mais secreto de mim para acordar alguma coisa que não devia acordar nunca, que não devia abrir os olhos nem sentir cheiros nem gostos nem tatos, uma coisa que devia permanecer para sempre surda cega muda naquele mais dentro de mim, como os reflexos escondidos, que nenhum ofuscamento se fizesse outra vez, porque devia ficar enjaulada amordaçada ali no fundo pantanoso de mim, feito bicho numa jaula fedida, entre grades e ferrugens, quieta, domada, fera esquecida da própria ferocidade, para sempre e sempre assim."
- Caio Fernando Abreu, fragmento do conto "Sargento Garcia". Morangos Mofados. (Saraiva de Bolso). Edição especial, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2013. p. 93 e 94.

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