quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Porque?



Tereza, Waldeluce, Marcela, Andressa, Simone, Clara, Maria, Sandrinha, Cristina, Isabel, Edineia,Josefina,Cintia, Anita, Rosa,Laura, Beth, Vilma,Beatriz. Eu realmente não tenho como saber o nome dessa idosa que todas as tardes se aloja no mesmo lugar em meu bairro(SP) com um monte de sacos de lixos pobres. Eles cheiram mal, ela mais ainda. Não sei de onde ela vem e nem para onde vai depois de sua sempre tão doída aparição.Ela nasce todas as tardes do mistério.
Agora a pouco tomei coragem e falei com ela.
-Bom dia!
-Como vai à senhora? Perguntei.
-Ela deu uma gargalhada e nada respondeu.
-Quer uma refeição? Perguntei.
-Ela disse: estou cheia em mim não cabe mais nada.
-Posso te fazer uma pergunta?
-Ela balançou a cabeça confirmando que sim.
-Porque carrega consigo tantas coisas?
- Porque nasci para ter muitas coisas.
-Foi seu sonho ter tantas coisas?
-Nunca foi um sonho, é uma missão.
-Entendo, respondi (sem entender nada).
Lembre de quando eu tinha 14 anos e na Praça Rui Barbosa (BAHIA) eu estava com meu amigo Marquinhos Lopes e passou um morador de rua levando nas costas muitos sacos de lixos, eu perguntei para meu amigo porque aquele homem carregava tanto lixo, sendo que sem os lixos sua caminhada seria mais leve.
Marquinhos respondeu: ninguém consegue viver sem a sensação de possuir alguma coisa.
-Posso tirar uma foto sua? Perguntei.
-Não, ela respondeu com raiva.
-Dei adeus e fui embora, andei um pouco e logo ela me gritou: Moço. . .
Retornei e ela disse que eu poderia tira um retrato dela, mas somente se eu prometesse algo.
-O que quer que eu prometa?
-Que nunca me mande o retrato depois de revelado, porque eu já tenho coisas demais.
-Promessa cumprida.
Tirei essa foto e fui embora para meu castelo com de rosa cheio de falsas luminosidades.
Eu queria conhecer sua história, suas verdades suas mentiras, suas insanidades, se teve dores de parto, se foi puta, se foi mulher, se foi feliz,do que que ela brincava quando criança,se aquela boca sem dentes já foi um dia beijada com tesão de fuder. Mas não foi possível. Pouco a pouco percebi que o melhor que eu poderia fazer aquela pobre senhora era respeitar sua indigência, sua maneira de ser escolhida ou não. Como bem diz meu amigo Diego Pinheiro: o que esclarece os fatos não são as respostas, e sim a capacidade de reflexão.
Conviver de forma harmoniosa com perguntas que não tem respostas é o meu maior desafio hoje.
Penso que não deixei nada dentro dela, nem minha riqueza pequena e nem minha pobreza tamanha.
Muitos de nós somos essa senhora, porque somos inundados de ausências, sentimentos que velamos todos os dias nas salas de nossas casas por medo de sepultá-los, afetos estragados e entulhos emocionais, isso nos impede de seguir com leveza. Pobreza, riqueza, lixos, cicatrizes tudo isso costurado naquele tecido humano que nem sei o nome, costurados em minha carne, talvez na sua.
O que pensa sobre tudo isso?
Ela vive em um mundo paralelo, ou eu vivo? Ou você?
Eu não sei mais o que escrever, vou consertar a minha asa quebrada e descansar.
Marlon-Príncipe maluco

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