domingo, 24 de novembro de 2019

O maior amor do mundo



A mim ela ensinou tudo.
Sobrou apenas a pergunta: como pode um peixe vivo, viver fora da água fria?
Sempre quis levar minha vó no cinema, viajar, teatro e etc.. .Mas nunca tive dinheiro, depois quando eu já poderia, ela já estava doente e totalmente debilitada.O destino foi cruel conosco.
É a única pessoa que me amou exatamente da maneira que eu necessito ser amado, e eu a amo e sempre amarei acima de tudo e de todos.
Um morto amado nunca mais para de morrer.
Por ela vou continuar vivendo, amando,escrevendo e fingindo está vivo, a para sempre morto por dentro.
Ela viveu 88 anos, mas eu nunca quis que ela morresse antes de mim.
Meu amor MAIOR, minha fada você é iluminada pelos raios da ternura, minha vida.
Não irei no sepultamento, pois jurei nunca mais voltar na cidade onde ela mora, vou cumprir o juramento até meu ultimo suspiro.
Metade de mim morreu e a outra metade também.
Segue a musica que cantávamos um para o outro: como pode um peixe vivo, viver fora da água fria, como poderei viver sem a sua companhia?
Hoje o que me mantém vivo é a esperança de um reencontro, sem demoras. . .
A minha primeira experiência de fé foi quando eu tinha seis anos de idade, indo para maternidade com minha avó visitar meu primeiro irmão que havia nascido andando pela rua segurando a mão de minha vó eu escorreguei, mas ela segurou firme a minha mão, eu confiei, eu acreditei que ela não me deixaria cair. Deu tudo certo ela sustentou meu pequeno corpo com sua mão e eu não cair. Essa foi a minha primeira experiência de fé. Aos poucos fui entendendo que Deus usa mãos, bocas e rostos humanos para nos livrar de escorregões nas avenidas das cidades ou da alma.
Tenho muitos amores e minha mãe certamente é um deles, minha mãe tem um papel fundamental na minha vida porque ela me faz pensar que sou possível. Mas o maior amor da minha vida é minha avó Maria, ele sempre me deixou chorar a vontade, ela nunca abortou minhas lagrimas, ela sempre me acolheu sem perguntar nada, sem questionar, jamais em tempo algum outro amor me completou tanto, ela é sem duvida o único ser humano que conheci e nunca em tempo algum quis roubar o meu direito de ser frágil. Ela estava (um morto amado não tem idade) idosa e frágil, às vezes lúcida às vezes não e a cada dia que ela perdia um pouco os movimentos emocionais ou físicos eu morria um pouco. Vejo na internet sempre vários grupos, organizado querendo resgatar animais que sofrem maus tratos, vejo grupos sendo solidários aos gays que sofrem violência em casa ou na rua, vejo pessoas indignadas com a violência contra as mulheres e tudo isso acho fantástico e apoio, mas nunca vi um grupo se organizar para resgatar idosos que são abandonados pela família em abrigos imundos pelo simples fato de perderem suas utilidades, a grande maioria dos abrigos para idosos no Brasil é um verdadeiro inferno, eles apanham, ficam dias sem tomar banho, são torturados e experimentam na carne a dor pior desse mundo que é o ABANDONO. Já vi campanhas adote um cachorro, adote uma criança com câncer, adote um menino de rua, e tantas outras. Penso que seria linda uma campanha adore um idoso, por que os inúteis também sentem fome de amor e poesia.
O poeta e cantor Carlinhos Brown disse certa vez que abandonar é um dos piores crimes que um humano pode cometer. Eu concordo totalmente.
A utilidade é um território muitíssimo perigoso, porque nos convida o tempo inteiro a amar apenas o que é útil, o que produz o que soma.
O que mais me da orgulho de ser escritor é que esse oficio, me oferece condições de visitar os contrários da condição humana, escrever me da livre aceso a minha indigência e através dela eu visito a do outro.
Esta semana um amigo me contou que leu em um jornal que uma moça espancou o pai de 75 anos pelo simples fato de ter pedido a ele para pagar algumas contas na internet e ele não conseguiu. A minha alma de criança chorou, a minha alma de idoso quis morrer.
Acredito sim na força de todos nos humanos empenhados em mudar a realidade que nossa vista esta cansada de ver e de tão cansada se acostumou. Preconceito é sempre igual, e racionalizar o fato de que o outro seja ele quem for também sente dor é o jeito mais bonito de ser pessoa.
Já fui fã, admirador e outras coisas mais de Clarice Lispector, hoje sou apenas devoto dela, é uma devoção quase suicida, mas me faz bem. Clarice disse certa vez: ‘‘eu gosto do que não presta pra nada’’. Mergulhar na inutilidade do outro é uma forma interessante de tentar desvendar o mistério de ser quem sou. Se depois de ter diante dos seus olhos um ser inútil você consegue amá-lo, tire a sandálias dos pês e agradeço a Deus, porque sem duvida nesse mundo de almas raquíticas você é um ser sublime, ou especial no sentido mais especial da palavra especial.
Voltando a minha avó Maria ela não prestava para mais nada, mas eu não sei viver sem ela. Pouco a pouco ela esta saindo do mundo das utilidades, mas não para entrar no mundo do esquecimento e sim para entrar no mundo dos significados.
Nunca foi amor, sempre foi maior.
Marlon De Albuquerque

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