domingo, 5 de abril de 2015

O show de cada manhã



Nem conhecia o amor.
Eu fui obrigada a conhecer o avesso do mundo.
Pra sobreviver é dor de não entender o que tinha acontecido, é dor de te perder, tudo.
Eu tive que nascer pra vida da cidade.
Não a vida social, mas a vida da cidade e de seus cantos esquecidos.
O lixo do lixo.
Eu me perdia pela cidade, anônima, e esse anonimato era um vício.
Eu não ter meu nome me absolvia de tudo.
Eu me embebedava do desejo cego por qualquer um...
E assim, eu me iniciei na solidão coletiva dos que não têm nada a perder.
Mas, talvez, eu tenha até mais que os outros a tentação de corresponder ao bem.
Uma tentação tão grande e absoluta, um desejo de corresponder de forma tão total, que paradoxalmente me tornou e me torna escrava cega de minha escuridão.
E quando essa escuridão me possui, eu até a confundo com uma espécie de bem-aventurança.


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