quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Acordando o Deus



Já vivi na escuridão, já me vi na ilusão, eu não sei em qual lugar esqueci a minha paz.
Eu não quero a fé, eu não tenho a fé, eu não posso acreditar acreditando eu perco a sintonia.
Eu não preciso de resposta, eu só quero oxigênio, isso vem do puro em mim, mas a minha pureza eu nunca sei usar, ela não se gasta e isso dói.
Eu não quero entender, entender me mata, entender me devolve.
Eu não tenho força física, porque a força vem do amor a mim, e esse amor é uma cidade que eu não conheço.
Eu não quero a liberdade, porque o que sobra de nosso encontro são espinhos a decorar meu coração.
Não posso amar e querer do amor à luz que não é minha, porque o atual em mim é aquilo que não tem fim.
Não quero meu cigarro, porque o cigarro me faz pensar e o pensamento é agonia em minha carne.
Não quero a inteligência, porque a inteligência engrandece e aqui é muito apertado.
Eu não quero a intuição, porque a intuição é um parto e perceber é algo que não tem volta.
Eu não posso querer Deus, porque o Deus que conheço é imagem e semelhança, e espelho para mim é risco de morte.
Não quero uma oração, porque a oração é oferenda, e eu não quero doar o resto que me sobra.
Não quero vender a alma, pois tudo tem um preço e eu não posso pagar mais nada.
Não quero a morte porque a morte me lembra silêncio e porque o silêncio me refaz.
Não quero a perfeição, porque a perfeição é finalidade, e porque eu quero mais um itinerário.
Não quero carinho mortal de uma mão gelada, porque só uma palavra amiga pode compor meu destino torto e rasurado, porque no fundo eu gosto daquilo que se quebra, que se rasga e se vai.
Não quero o sagrado, porque o sagrado me acalma, e porque eu sou doente pelo espanto, e porque o espanto é o justo é o susto é o pranto.
Não quero a casa da palavra, porque gosto das roseiras, porque é la que mora minha alma, mas como não tenho alma, moro em lugar nenhum.
Não quero a bondade gratuita, porque sempre fui amado por caridade, e usado cruelmente por amor.
Não quero que você me perdoe, porque seu perdão me condena, e porque a condenação é uma forma de seduzir a luz.
Não vou assustar a minha culpa, porque sofrer já não parece nobre, e porque eu sou nobre até a minha inveja é de coração.
Não permitirei que estrelas possam varrer meus pés como uma tempestade insana, porque estrelas acendem, e eu gosto de brincar na ponte que separa a minha cegueira da própria escuridão, porque estrelas são cegantes e eu estou aprendendo a fechar meus olhos por conta própria.
Marlon( Príncipe maluco)

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